CARTA ABERTA A CANTORA DANIELA MERCURY: NA LUTA CONTRA O MACHISMO, O RACISMO E A LGBTFOBIA NA MANGUEIRA!
Prezada Daniela Mercury,
Daniela querida, Canto da Cidade e de tantas outras cidades, canto da diversidade, canto da liberdade e da igualdade. Voz que não se cala diante da violência, voz altiva e imponente contra todas as formas de opressão.
Você, que transformou sua trajetória artística numa afirmação pública dos direitos humanos, que enfrentou o preconceito, a intolerância religiosa, o machismo e a LGBTfobia, certamente compreenderá a gravidade do apelo que lhe dirijo.
É precisamente em nome desses valores que lhe peço: não permita que sua voz, sua imagem e sua história sejam utilizadas para conferir legitimidade à atual administração da Estação Primeira de Mangueira, presidida por Guanayra Firmino dos Santos.
A Mangueira, Daniela, é muito maior do que sua presidente. É patrimônio da cultura negra brasileira, território de ancestralidade, resistência e afirmação popular. É a escola de Cartola, Dona Zica, Nelson Cavaquinho, Jamelão, Beth Carvalho, Alcione e de milhares de sambistas anônimos que construíram sua grandeza.
Mas sua atual presidente acumula episódios públicos e denúncias que merecem sua atenção.
Em abril de 2020, Guanayra Firmino, então vice-presidente da Mangueira, protagonizou um episódio de grande repercussão nacional ao se referir à médica Thelma Assis, participante do Big Brother Brasil, com as expressões "MUCAMA SAFADA" e outras ofensas. As declarações foram reproduzidas pela imprensa e provocaram acusações públicas de racismo. Posteriormente, Guanayra apresentou desculpas, atribuindo sua manifestação à indignação diante do racismo estrutural.
Agora, em 2026, outro episódio foi levado à Polícia Civil do Rio de Janeiro.
Em 21 de agosto, registrei na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (DECRADI) a ocorrência nº 962-00514/2026, na qual Guanayra figura como autora apontada de manifestações ofensivas dirigidas a mim. O registro foi classificado como injúria por preconceito, com motivação presumida de homofobia.
Entre as expressões relatadas estão "viado solitário", "miserável", "desgraçado", "infeliz" e "abjeto".
Daniela, você conhece o peso dessas palavras. Conhece a violência que acompanha a tentativa de diminuir, constranger e desqualificar uma pessoa em razão de sua orientação sexual. Essas manifestações não podem ser dissociadas da responsabilidade pública de quem preside uma instituição que historicamente acolheu pessoas LGBTQIA+, mulheres negras, artistas marginalizados e tantos brasileiros que encontraram no samba um espaço de pertencimento. E há mais.
A administração da Mangueira também é objeto de questionamentos relativos à utilização de recursos públicos estaduais e federais.
Em parecer de 28 de setembro de 2026, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro defendeu a anulação de uma sentença que encerrou prematuramente uma ação popular sobre o pagamento de R$ 30 mil, com recursos vinculados à Funarj, a uma empresa aberta apenas dois dias antes. O procurador apontou falhas no exame dos indícios e defendeu que o processo retornasse à primeira instância.
Em outro projeto, denominado Oficinas Carnavalescas da Mangueira, financiado com R$ 1,5 milhão do Ministério da Cultura, foram identificadas contratações remuneradas envolvendo filhos da presidente e outras pessoas apontadas como integrantes de seu núcleo familiar.
Entre os pagamentos questionados está ainda o repasse de R$ 165 mil a uma empresa vinculada à administração da agremiação para locação de instrumentos musicais, cuja documentação apresenta divergências entre violões, instrumentos de percussão, quantidades e unidades de cobrança.
São questões que demandam transparência, fiscalização e esclarecimento público.
Sei que você participou da escolha do samba-enredo Oyá por Nós, para o Carnaval de 2027, e posteriormente integrou sua gravação ao lado de Maria Bethânia, Alcione e Leci Brandão.
Compreendo a emoção de cantar a história de Oyá, de exaltar as religiões de matriz africana e de participar de uma manifestação cultural da dimensão da Mangueira. Compreendo também o significado da parceria com os compositores e da celebração coletiva que acompanha um samba-enredo.

Daniela Mercury na Parada do Orgulho LGBTQIA+ São Paulo-SP
O que se pede não é que abandone a cultura do samba, seus compositores ou a comunidade mangueirense. Peço que reconsidere sua associação pública à atual gestão e que não permita que sua participação artística seja convertida em instrumento de promoção pessoal de dirigentes cujas condutas estão sendo questionadas. Sua voz pertence à história da música brasileira. Sua trajetória de enfrentamento ao preconceito lhe confere uma responsabilidade que ultrapassa os palcos.
Link registro de denúncia Faetec: Clique aqui e saiba mais.
Não seria coerente que a artista que denunciou a LGBTfobia, enfrentou o machismo e defendeu mulheres negras permanecesse indiferente diante de denúncias dessa natureza apenas porque elas envolvem a direção de uma escola de samba tão querida. A tradição da Mangueira não pode servir de escudo para seus administradores. Amar uma instituição também significa exigir que seus dirigentes respeitem os valores que ela representa.
Coloco à sua disposição os documentos, registros policiais, contratos administrativos e manifestações do Ministério Público que fundamentam as questões aqui apresentadas. Por fim, Daniela, recordo que a própria Oyá que você canta simboliza os ventos, as tempestades e a transformação. Que sua força não seja apropriada para encobrir aquilo que precisa vir à luz.
Link Matéria G1: Diretor e Barracão da Mangueira filho da presidente Guanayra Firmino mata uma pessoa dirigindo alcoolizado e nega socorro. Clique aqui e saiba mais.
A Mangueira merece sua voz. Sua comunidade merece seu respeito. Mas seus dirigentes precisam merecer sua confiança. Com respeito à sua trajetória artística e à sua coragem na defesa dos direitos humanos,
Daniela tenha uma excelente tarde, uma boa reflexão e uma pronta resposta para nós sambistas, mangueirenses e comprometidos com a coerência e a ética.
Èké kò sùn rárá. Nínú igbó ni Sàngó ti ń jó pẹ̀lú ẹrù rẹ̀, ìwọ èké.

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