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DEMOCRACIA NÃO É DISCURSO: É PRÁTICA, CORAGEM E COERÊNCIA

Há uma pergunta que precisa ser feita, em voz alta, dentro da Mangueira: que democracia é essa que muitos defendem nas redes sociais, nos discursos públicos, nos textos acadêmicos e nas rodas de conversa, mas abandonam na Rua Visconde de Niterói? Que defesa do Estado Democrático de Direito é essa que se levanta contra o golpe de 8 de janeiro de 2023, na Esplanada dos Ministérios, mas se cala diante do sequestro institucional ocorrido na noite de 10 de março de 2025, no Palácio do Samba?

Que cidadãos são esses que se dizem defensores dos direitos humanos, antifascistas, progressistas, democratas, que repetem que “ninguém solta a mão de ninguém”, mas colaboraram, direta ou indiretamente, com a farsa da chapa única na Estação Primeira de Mangueira?

Quando o golpe eleitoral e institucional acontece dentro da nossa própria casa, o que se revela é ainda mais grave: muitos daqueles que se dizem democratas passam a colaborar, tolerar ou silenciar diante do sequestro político da Mangueira. E esse sequestro institucional, segundo as denúncias apresentadas, teria beneficiado diretamente a atual presidente Guanayra Firmino dos Santos, que teria contado com a intimidação territorial exercida por força armada vinculada ao tráfico de drogas no Morro da Mangueira para consolidar sua permanência no poder sob a falsa narrativa de que não havia oposição e de que a eleição teria sido resultado natural de uma chapa única.

O QUE ACONTECEU?

No dia 27 de fevereiro de 2025, a Comissão Eleitoral divulgou o Edital de Convocação das Eleições para o Triênio 2025-2028. O edital previa que as chapas interessadas em disputar o pleito deveriam ser inscritas no dia 11 de março de 2025. Antes disso, nos dias 6 e 7 de março, quinta e sexta-feira, os interessados deveriam retirar, na Secretaria da Quadra da Mangueira, o requerimento de registro eleitoral e a ficha de inscrição de chapa.

No dia 7 de março de 2025, sexta-feira, quatro sócios retiraram a documentação eleitoral:

Gustavo de Castro Failase, sócio benemérito, matrícula nº 3.759;
Marco Antônio Gomes, sócio remido, matrícula nº 365;
Queila Mara Ferreira dos Santos, sócia contribuinte, matrícula nº 8.973;
Paulo de Menezes Monteiro, sócio contribuinte, matrícula nº 6.498.
Segundo os registros, Paulo Monteiro teria retirado o kit eleitoral pela chapa da situação, denominada Avante Mangueira. Queila Mara teria retirado pela Chapa Nação Mangueirense. Gustavo Falaise e Marco Antônio Gomes não teriam indicado formalmente, naquele momento, o nome da chapa à qual estavam vinculados. Contudo, há informações de que Gustavo pretendia lançar a chapa Renova Mangueira, enquanto Marco Antônio Gomes, em tese, integraria a Chapa Nação Mangueirense como candidato a vice-presidente na composição encabeçada pelo sócio grande benemérito Edson Marcos Gaspar de Andrade, engenheiro, antigo colaborador da instituição e pessoa com relevantes serviços prestados à Estação Primeira de Mangueira ao longo de sua trajetória.

Esse fato, por si só, derruba a narrativa de que não havia interessados em disputar a eleição. Não havia desinteresse. Havia movimentação eleitoral. Havia retirada de documentação. Havia articulação de chapas. Havia, portanto, possibilidade concreta de disputa. A versão da chapa única não nasceu da ausência de oposição: ela precisa ser analisada à luz das condições concretas em que a oposição foi constrangida, neutralizada ou impedida de se organizar plenamente.

Para que as inscrições pudessem ocorrer no dia 11 de março, era indispensável que a Comissão Eleitoral tivesse acesso à listagem de sócios aptos a se inscreverem como candidatos a presidente, vice-presidente e membros do Conselho Deliberativo e Fiscal, observando as exigências do Estatuto Social da Mangueira. Entre essas exigências estavam a idade mínima de 35 anos, a condição de sócio contribuinte pelo prazo mínimo de quatro anos consecutivos, a adimplência com as contribuições sociais e a inexistência de penalidades aplicadas no período estatutariamente considerado.

O edital foi publicado em 27 de fevereiro de 2025. Todavia, apenas na quinta-feira, 6 de março de 2025, foi convocada Reunião Extraordinária do Conselho Deliberativo e Fiscal para a segunda-feira seguinte, 10 de março, às 19h, na Quadra da Mangueira, com a finalidade de homologar a listagem de sócios aptos. Tratava-se de providência essencial para a regularidade das inscrições que ocorreriam no dia seguinte. A homologação da lista eleitoral, portanto, não era detalhe burocrático: era condição material para que qualquer chapa pudesse se organizar, conferir nomes, compor sua nominata e exercer efetivamente o direito de disputa.

A noite de 10 de março de 2025, segunda-feira, reservou uma das cenas mais graves, decadentes e deprimentes da história recente da Estação Primeira de Mangueira. Segundo relatos e denúncias, a pedido da então presidente Guanayra Firmino dos Santos e de seu Vice-Presidente de Integração Comunitária, Edvaldo Vicente Gomes Junior, conhecido como Junior Mangueira, teria sido acionada uma engrenagem de intimidação política vinculada ao controle territorial exercido pelo tráfico de drogas no Morro da Mangueira.

Junior Mangueira, então Vice-Presidente de Integração Comunitária, ocupava cargo criado por Guanayra Firmino dos Santos quando de sua posse como presidente, em junho de 2022. O cargo teria servido para abrigar, dentro do Conselho Diretor, o então presidente da Associação de Moradores do Complexo da Mangueira. Junior chegou à Mangueira por volta de 2019, assumiu a presidência da associação de moradores após uma crise política local e, já em 2020, candidatou-se a vereador pelo PMN, quando obteve pouco mais de três mil votos. Quatro anos depois, filiado ao Partido dos Trabalhadores, foi novamente candidato a vereador da cidade do Rio de Janeiro, alcançando pouco mais de sete mil votos, com apoio de lideranças relevantes do partido.

Além da mudança partidária, há outro ponto que exige explicação pública. Em 2020, como candidato pelo PMN, Junior Mangueira declarou-se homem de cor/raça branca. Em 2024, já filiado ao PT, passou a declarar-se homem de cor/raça preta, tendo recebido expressivo volume de recursos eleitorais vinculados à política de financiamento de candidaturas negras. Esse fato, embora diga respeito a outra esfera de apuração, revela a necessidade de escrutínio rigoroso sobre sua atuação política, sua inserção institucional e sua influência no território da Mangueira.

Segundo informações e denúncias que devem ser apuradas pelas autoridades competentes, Junior Mangueira seria operador político de Marcelo Xará e exerceria influência decisiva sobre a Associação de Moradores, atualmente presidida por pessoa de sua indicação política. Também segundo os relatos, Guanayra Firmino dos Santos teria cobrado de Junior apoio à sua reeleição, especialmente após as eleições de outubro de 2024, em razão das articulações políticas que envolveram sua filiação ao Partido dos Trabalhadores e a aproximação com lideranças partidárias nacionais e estaduais.

Foi nessa mesma Quadra da Mangueira, na noite de 10 de março de 2025, que o pré-candidato Edson Marcos Gaspar de Andrade, conhecido como Edson Marcos, teria recebido uma mensagem levada por um homem identificado como “Simeão”. Segundo os relatos, Simeão transmitia ordem atribuída a Marcelo Xará para que Edson Marcos subisse o Morro da Mangueira até a região da Fundação, onde funciona a sede da Associação de Moradores, na Rua General Barreto.

Diante do contexto territorial da Mangueira, onde o poder armado de uma facção criminosa exerce controle real sobre a circulação, a segurança e a vida cotidiana de moradores e frequentadores, tal convocação não poderia ser compreendida como simples convite. Em um território onde o monopólio legítimo da força não é exercido plenamente pelo Estado Democrático de Direito, uma ordem dessa natureza possui caráter coercitivo. Edson Marcos, segundo os relatos, não teve alternativa real a não ser subir.

Consta que Edson Marcos teria subido antes das 19h e que, por volta das 21h, quando a reunião de homologação ainda não havia terminado, ele ainda não havia retornado. Após seu retorno, comunicou que não seria mais candidato. Segundo as denúncias, Marcelo Xará teria afirmado que já possuía uma candidata: Guanayra Firmino dos Santos.

Esse é o ponto central. Se Marcelo Fonseca de Souza, conhecido como Marcelo Xará, não consta como sócio contribuinte do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, seu eventual apoio à candidatura de Guanayra não poderia se dar pelo voto associativo. Logo, se a denúncia for confirmada, esse apoio não teria natureza eleitoral legítima, mas sim natureza coercitiva, fundada na intimidação e no controle armado do território. Foi dessa forma, segundo os relatos, que se consolidou a chamada chapa única.

É diante disso que se deve perguntar aos mangueirenses que se dizem democratas: como fica a consciência de quem denunciou o golpismo em Brasília, mas aceita o golpismo na Mangueira? Como dorme tranquilo quem repudiou a invasão das sedes dos Três Poderes, mas se cala diante da denúncia de que o poder armado do território teria sido utilizado como instrumento de neutralização eleitoral? Como se sustenta moralmente quem aplaudiu o enfrentamento institucional à tentativa de golpe contra a República, mas normaliza uma gestão politicamente ilegítima, acusada de fabricar uma chapa única depois de sufocar a possibilidade concreta de disputa?

A pergunta é dura porque a omissão também é dura. Onde estão os que falam em democracia? Onde estão os que discursam contra o autoritarismo? Onde estão os que se apresentam como defensores dos direitos humanos, da liberdade, da participação popular e do Estado Democrático de Direito? Onde estão os que se dizem contra o racismo, contra o machismo, contra a LGBTfobia, contra toda forma de violência e opressão, mas ficam mudos quando o assunto é a liberdade associativa dos mangueirenses, o direito de votar e ser votado, o direito de disputar a direção da escola sem medo, sem ameaça e sem coerção?

Não existe democracia seletiva. Não existe Estado Democrático de Direito de conveniência. Não existe luta contra opressão que aceite intimidação quando a intimidação favorece o grupo político de estimação. Quem se cala diante da violência política interna legitima o método. Quem relativiza a coerção porque ela atinge adversários deixa de ser democrata e passa a ser cúmplice moral da exceção. Quem combate o golpe dos outros, mas tolera o golpe dos seus, não tem compromisso com a democracia; tem compromisso com a própria turma.

A Mangueira é patrimônio cultural, afetivo, histórico e comunitário. Ela não pertence a uma presidente, a um grupo, a uma chapa, a um gabinete, a um patrocinador, a uma família ou a qualquer força externa ao seu Estatuto. A Mangueira pertence à sua comunidade, aos seus sócios, aos seus componentes, aos seus trabalhadores, aos seus velhos baluartes, às suas mulheres, aos seus compositores, aos seus ritmistas, às suas crianças, aos seus ancestrais e à história do samba brasileiro. Por isso, o ataque à democracia interna da Mangueira não é um problema menor. É uma agressão à própria memória política de uma instituição que nasceu da força coletiva de um território negro, popular e resistente.

A radicalidade democrática exige coragem para dizer o óbvio: não há legitimidade onde há medo. Não há eleição limpa onde há denúncia de sequestro político. Não há aclamação válida onde houve interessados impedidos, desestimulados ou constrangidos. Não há chapa única verdadeira quando os registros mostram retirada de kits por diferentes associados e quando o ambiente eleitoral teria sido contaminado por intimidação. Não há democracia quando a regra vira enfeite e o poder vira propriedade privada.

E é preciso dizer, sem rodeios: quem dá golpe é golpista. Ninguém dá golpe para trazer democracia. Ninguém dá golpe para produzir cidadania. Ninguém dá golpe para fortalecer instituições. Ninguém dá golpe para ampliar direitos. Golpe serve para conservar poder, esconder fragilidade, bloquear fiscalização e impedir alternância. E, quando o golpismo se instala na vida institucional, ele quase sempre caminha ao lado da opacidade administrativa.

No caso da gestão Guanayra Firmino dos Santos, isso também precisa ser analisado à luz dos termos de fomento executados pela escola: muito dinheiro público, dezenas de questionamentos, baixa comprovação de entrega, vínculos familiares e políticos em contratações, inconsistências documentais, ausência de transparência suficiente e situação de Inadimplência Efetiva — Atraso na Entrega da Documentação no Termo de Fomento nº 941311, conforme registros relacionados ao Ministério da Cultura e à Plataforma Transferegov.

A Mangueira precisa escolher de que lado da história quer ficar. Do lado da democracia real ou da democracia de fachada. Do lado da coragem ou da conveniência. Do lado da transparência ou da intimidação. Do lado da memória de Cartola, Dona Neuma, Dona Zica e Nelson Sargento, ou do lado de uma gestão que precisa explicar por que uma eleição com interessados virou uma falsa chapa única.

A democracia que se defende no Brasil precisa começar dentro da própria Mangueira. Porque quem tolera golpe em casa perde autoridade moral para denunciar golpe na rua.

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