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O SAMBA QUE FOI EMBORA: A DESISTÊNCIA DA PARCERIA DE XANDE DE PILARES E O COLAPSO DE CONFIANÇA NA DISPUTA DA MANGUEIRA

Fala, Mangueira! — Mangueira, Rio de Janeiro, 12 de agosto de 2026 A disputa de samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira para o Carnaval de 2027 acaba de perder aquela que era apontada como sua parceria favorita. A obra inscrita sob o número 03 — assinada por Gilson Bernini, Xande de Pilares, Gustavo Clarão, Karinah, Beto Savanna e Felipe Mussili — retirou-se da competição. Foi o primeiro samba a subir ao palco do Palácio do Samba na noite de 1º de agosto, classificou-se em todas as eliminatórias realizadas e mobilizava a comunidade a cada apresentação, defendido pelos intérpretes Ito Melodia e Pitty de Menezes, com a cavaquinista Yayá do Cavaco e a presença de Wic Tavares, vencedora do Estandarte de Ouro. Era, por qualquer critério, uma candidata ao título. É preciso dizer quem são essas pessoas para se medir o tamanho do gesto. Xande de Pilares é um dos mais consagrados cantores e compositores do Brasil, referência nacional do samba desde o Grupo Revelação. Gilson Bernini soma...

O SAMBA QUE FOI EMBORA: A DESISTÊNCIA DA PARCERIA DE XANDE DE PILARES E O COLAPSO DE CONFIANÇA NA DISPUTA DA MANGUEIRA

Fala, Mangueira! — Mangueira, Rio de Janeiro, 12 de agosto de 2026

A disputa de samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira para o Carnaval de 2027 acaba de perder aquela que era apontada como sua parceria favorita. A obra inscrita sob o número 03 — assinada por Gilson Bernini, Xande de Pilares, Gustavo Clarão, Karinah, Beto Savanna e Felipe Mussili — retirou-se da competição. Foi o primeiro samba a subir ao palco do Palácio do Samba na noite de 1º de agosto, classificou-se em todas as eliminatórias realizadas e mobilizava a comunidade a cada apresentação, defendido pelos intérpretes Ito Melodia e Pitty de Menezes, com a cavaquinista Yayá do Cavaco e a presença de Wic Tavares, vencedora do Estandarte de Ouro. Era, por qualquer critério, uma candidata ao título.

Personagem que representa a senhora Mangueira em prantos


É preciso dizer quem são essas pessoas para se medir o tamanho do gesto. Xande de Pilares é um dos mais consagrados cantores e compositores do Brasil, referência nacional do samba desde o Grupo Revelação. Gilson Bernini soma mais de quarenta anos de ofício, obras gravadas por Zeca Pagodinho, Caetano Veloso, Fundo de Quintal e Jorge Aragão, e seis vitórias na disputa de samba-enredo da própria Mangueira: 2000, 2001, 2003, 2004, 2006 e 2009. Gustavo Clarão venceu diversas disputas na Viradouro, em Niterói, e foi campeão na Mangueira em 1993 e 2009. Ao lado deles, Karinah, musa da escola e madrinha de projeto social na quadra; Beto Savanna, cria da Mangueira, compositor na agremiação desde 1997, com oito sambas em finais; e Felipe Mussili. Não se trata de estreantes impacientes. Trata-se de gente que dedicou a vida à verde e rosa — e que decidiu que não valia a pena continuar.

Uma parceria não abandona uma disputa em que vem vencendo por falta de talento ou de disposição. Abandona quando conclui que a competição não oferece as garantias mínimas que justificariam permanecer nela. E a disputa de 2027 transcorre, pelo quarto ano consecutivo, sem edital público, sem critérios escritos de julgamento, sem comissão julgadora independente, sem procedimento de recurso e sem qualquer regra de impedimento para concorrentes com vínculos com a direção da escola. "Não foi apresentado um edital público capaz de estabelecer, com clareza, as etapas da competição, os critérios de avaliação, a composição e a competência da comissão julgadora, as hipóteses de eliminação, os procedimentos para recursos e as garantias de tratamento igualitário entre as parcerias. O que se teve foram orientações dispersas, declarações informais e palavras lançadas ao vento", afirma Pablo Brandão, coordenador do Coletivo Transparência Mangueira, que protocolou em 26 de maio, junto ao Conselho Deliberativo e Fiscal, proposta completa de edital para o certame. Até hoje, nenhuma resposta.




Os números da própria disputa já anunciavam o que a desistência agora confirma. Foram inscritas apenas dez obras em 2027, reunindo 55 compositores — o menor número de sambas e o menor contingente de participantes de toda a série histórica organizada pelo Coletivo, que cobre onze disputas entre 2016 e 2027 e registra média de 24,6 obras e 111,2 compositores por certame. O segundo pior resultado da série é o de 2025, com onze sambas e 61 participações, também sob a gestão atual. Entre 2016 e 2022, a Mangueira recebeu em média 29 obras por ano; em 2022 foram 52. Nos três últimos ciclos, a média despencou para 14,3. Sequer em 2009, após grave crise institucional, a escola conheceu contingente tão reduzido. E agora, à contração da entrada, soma-se a evasão no meio do caminho: quando um seis vezes campeão como Gilson Bernini sai pela porta, cabe perguntar quem a gestão imagina que entrará por ela.

Há ainda o que a comunidade comenta e o Coletivo documenta: permanece na disputa, integrando a parceria encabeçada por Lequinho, o compositor Gabriel Machado — Gabriel de Alencar Machado, advogado inscrito na OAB/RJ sob o nº 159.422, integrante desde 2013 do escritório Nelio Machado Advogados, uma das duas bancas contratadas pela atual gestão para exercer, na prática, as funções do Departamento Jurídico da agremiação. O mesmo profissional atuou como defensor de Diego Firmino Santiago Sales, filho da presidente Guanayra Firmino dos Santos e então diretor de Barracão, no episódio de agosto de 2024 em que este foi preso em flagrante por homicídio culposo após atropelar e matar um homem em situação de rua em Manguinhos. Gabriel Machado integrou as parcerias vencedoras da Mangueira em 2018, 2023, 2024 e 2025 — três vitórias consecutivas dentro da atual administração. O Coletivo não imputa a ele qualquer ilícito nem contesta seu mérito artístico: advogar é direito, compor é talento. O que se afirma é o óbvio que a carta de maio já advertia: um concorrente cujo escritório é remunerado pela escola e que defende a família da presidente não pode disputar, em pé de igualdade, um concurso conduzido por essa mesma presidência, sem edital e sem regra de impedimento. Foi exatamente para proteger o certame — e o próprio nome do advogado — que o Coletivo recomendou o veto preventivo. A recomendação foi ignorada. O resultado está diante de todos.


Samba 03

"A redução para dez sambas não é o problema isolado. É o sintoma mais visível de um processo que perdeu previsibilidade, transparência e credibilidade. Recuperar a grandeza da disputa exige regras escritas, critérios públicos, comissão julgadora independente, impedimentos para pessoas com conflitos de interesses, divulgação das notas e justificativas, mecanismos de recurso e efetiva participação dos segmentos da escola", sustenta Pablo Brandão. A proposta do Coletivo prevê, ainda, apoio concreto às parcerias de jovens, mulheres, pessoas negras, pessoas LGBTQIA+ e moradores do Quilombo de Mangueira: estúdio de gravação, intérprete do carro de som, músicos, arranjador, videoclipe e ajuda de custo — porque a igualdade formal, sozinha, não devolve ao morro o concurso que já foi seu.

Pablo Brandão, foi vice-´presidente Financeiro da Estação Primeira de Mangueira é coordenador do Coletivo Transparencia Mangueira
Pablo Brandão - Coordenador do Coletivo Transparência Mangueira

A história recente ensina que a Mangueira já pagou caro pela ausência de regras. Em 2012, a comissão eleitoral da escola — presidida pelo então vice-presidente da própria agremiação — impugnou as duas chapas de oposição e encaminhou o pleito à aclamação do presidente em exercício; o Poder Judiciário sustou o processo por liminar e, meses depois, o juízo da 36ª Vara Cível da Capital nomeou interventor para organizar nova eleição, em razão de irregularidades na condução do certame. Em 2019, o roteiro se repetiu sem intervenção: chapa de oposição barrada pela comissão, aclamação de chapa única — a mesma da qual a atual presidente emergiu como vice. Quando as regras nascem depois da disputa, ou não nascem nunca, o resultado é sempre o mesmo: quem decide é quem controla o processo, e quem ama a escola vai embora.

Nenhum presidente é maior que a Mangueira. Nenhuma diretoria é proprietária de sua história, de suas cores ou de seu patrimônio cultural. O samba-enredo não pertence a quem ocupa temporariamente a presidência — pertence a Cartola, a Carlos Cachaça, a Nelson Cavaquinho, ao Quilombo de Mangueira que o inventou. A parceria de Xande de Pilares, Gilson Bernini e Gustavo Clarão não desistiu do samba. Desistiu de uma gestão. E enquanto essa gestão não devolver à disputa a regra escrita, o critério público e o julgamento independente, cada sábado de eliminatória será menos uma festa e mais um aviso: o samba está indo embora da casa que o viu nascer.

Leia a Nota Oficial completa do Coletivo Transparência Mangueira e a íntegra da Proposta de Edital protocolada em 26 de maio: https://falamangueirafala.blogspot.com/2026/08/nota-oficial-do-coletivo-transparencia.html

Conheça o Dossiê Fala Mangueira: https://falamangueirafala.blogspot.com/2026/07/dossie-fala-mangueira-transparencia.html

Assine a petição Salvem a Mangueira — Novas Eleições Já: [inserir link Change.org]

Coletivo Transparência Mangueira — transparenciamangueira@gmail.com

É na luta que a gente se encontra.

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