CHUMBO TROCADO NÃO DÓI
A crise política interna da Estação Primeira de Mangueira ganhou novos contornos após a circulação de denúncias envolvendo a gestão da presidente Guanayra Firmino dos Santos, a atuação do vice-presidente Social Edvaldo Vicente Gomes Junior, conhecido como Junior Mangueira, e a recente exoneração do dirigente de cargo que ocupava na Prefeitura de Maricá.
Segundo informações publicadas pelo site Notícias Tempo Real, Junior Mangueira teria sido exonerado no último dia 13 de cargo na administração municipal de Maricá, onde receberia remuneração superior a R$ 20 mil. A exoneração, ainda de acordo com o portal, teria ocorrido em meio ao avanço de denúncias internas que apontam supostas irregularidades em projetos desenvolvidos pela Estação Primeira de Mangueira, incluindo suspeitas de licitações fraudulentas, possível falsificação de documentos, ausência de execução integral do objeto previsto em Plano de Trabalho e nomeação de familiares em funções relacionadas à estrutura da agremiação ou a projetos por ela executados.
As denúncias, que circulam nos bastidores da Verde e Rosa e também em páginas de redes sociais, teriam sido reunidas em um dossiê que passou a sustentar pedidos de responsabilização política e administrativa da atual gestão. O material aponta, segundo seus autores, para a necessidade de apuração sobre a destinação de recursos públicos, a execução de projetos culturais e sociais, a contratação de fornecedores, a regularidade documental das prestações de contas e a eventual utilização da estrutura institucional da Mangueira para fins de favorecimento político, pessoal ou familiar.
O caso ganhou maior repercussão após pronunciamento oficial da presidente Guanayra Firmino em suas redes sociais. Na manifestação, a dirigente afirmou que estaria sendo alvo de ataques feitos por pessoas ligadas à escola e informou que levaria as acusações à Justiça. Em trecho da nota, Guanayra declarou: “Sou uma mulher madura, experiente e centrada, e não me envolvo em situações que não condizem com meus valores. Todos aqueles que lançaram falsas acusações contra mim serão responsabilizados. A Justiça pode tardar, mas não falhará”.
A declaração pública da presidente foi interpretada por setores internos como uma resposta direta ao crescimento das denúncias e à movimentação de grupos que passaram a questionar, de forma mais incisiva, a gestão dos recursos captados pela agremiação. Nos últimos meses, páginas como Transparência Mangueira e Renova Mangueira vêm divulgando questionamentos sobre emendas parlamentares, projetos culturais, contratos, notas fiscais, fornecedores e ausência de transparência na execução de planos de trabalho.
Nesse ambiente de disputa, Junior Mangueira passou a ser apontado por aliados da presidente como um dos possíveis articuladores das denúncias. A autoria das páginas, contudo, não foi formalmente comprovada. Mesmo assim, a suspeita alimentou uma guerra interna de versões, na qual as denúncias contra a gestão passaram a conviver com acusações dirigidas ao próprio vice-presidente Social.
Um dos pontos explorados contra Junior Mangueira envolve sua viagem ao Marrocos e a tentativa de entrada em Burkina Faso. Em publicação feita no Instagram em 28 de março de 2025, o dirigente afirmou estar no Marrocos, onde teria iniciado um curso de construção civil, e informou que pretendia levar novidades “para os empreendimentos de interesse social habitacional em Maricá”. Na mesma postagem, mencionou que tinha uma viagem marcada para Burkina Faso, país para o qual teria tido o visto negado duas vezes. O registro também fazia referência ao Ramadã e a práticas religiosas observadas no calendário islâmico.
A viagem passou a ser objeto de questionamento após ser apresentada como possível agenda institucional. Entre os anexos mencionados por denunciantes estão um vídeo de reunião com o embaixador do Brasil no Reino do Marrocos, Alexandre Guido Lopes Parola; documento de comprovação de vínculo de Edvaldo Vicente Gomes Junior com a Prefeitura de Maricá; vídeo publicado nas redes sociais narrando práticas religiosas no Marrocos; e extrato de pagamento de diárias da Prefeitura de Maricá. Os questionamentos se concentram na ausência, até o momento, de comprovação pública da agenda em Diário Oficial e na agenda formal da representação diplomática brasileira.
A partir desses elementos, adversários internos passaram a sustentar que a denúncia sobre a viagem teria sido utilizada como reação política às acusações feitas contra a gestão de Guanayra. A tese que circula nos bastidores é a de que a presidente, ou pessoas próximas a ela, teriam levado adiante informações sobre a viagem internacional de Junior Mangueira, o que teria provocado desgaste junto ao grupo político de Maricá. Ainda segundo essa versão, a repercussão negativa teria contribuído para a exoneração do dirigente da estrutura municipal.
Até o momento, o que há é uma sequência de fatos politicamente conectados: o avanço das denúncias contra a gestão da Mangueira, a reação pública da presidente, a exposição da viagem internacional de Junior Mangueira, a circulação de questionamentos sobre a finalidade da agenda no exterior e, por fim, a exoneração do dirigente de cargo remunerado na Prefeitura de Maricá. Nos bastidores, também circula a informação de que uma suposta denúncia apresentada por aliado da presidente Guanayra Firmino à Ouvidoria do Governo Federal teria desencadeado movimentação de órgãos federais em Maricá, município que concentra expressiva arrecadação petrolífera e ocupa posição estratégica na política fluminense.
O episódio aprofunda a crise política da Estação Primeira de Mangueira às vésperas de seu centenário. A escola, que completou 98 anos de fundação em meio a uma celebração marcada pela presença de lideranças políticas, vê sua vida interna ser atravessada por acusações cruzadas, disputas por controle institucional, suspeitas sobre recursos públicos e uma guerra de narrativas que já ultrapassou os limites da quadra.
De um lado, há denúncias que cobram explicações sobre projetos, contratos, emendas parlamentares, execução de metas e prestação de contas. De outro, há a reação da presidente, que afirma ser vítima de falsas acusações e promete responsabilizar judicialmente os envolvidos. No centro do conflito, Junior Mangueira aparece como personagem decisivo: dirigente da escola, ex-candidato a vereador, aliado do grupo político de Maricá, exonerado de cargo público e agora associado, direta ou indiretamente, às denúncias que abalaram a atual gestão.
A crise também atinge o tabuleiro político de Maricá. Com o enfraquecimento de Junior Mangueira, o grupo liderado por Washington Quaquá vê se fragilizar uma de suas pontes com a base mangueirense e com setores populares do samba carioca. A exoneração, somada à exposição pública da viagem internacional e às disputas internas da Mangueira, cria ruídos em uma estratégia política que também envolve Diego Zeidan, filho de Quaquá, em momento de reorganização eleitoral no campo petista fluminense.
Junior Mangueira e Washington Quaquá prefeito de Maricá
A frase “chumbo trocado não dói” sintetiza o momento vivido pela Verde e Rosa. A disputa deixou de ser apenas política e passou a envolver documentos, redes sociais, cargos públicos, relações partidárias, denúncias administrativas e possíveis consequências jurídicas. Para além das versões de cada grupo, a questão central permanece a mesma: a Estação Primeira de Mangueira precisa apresentar, com clareza, seus documentos, suas prestações de contas, seus contratos, seus processos decisórios e a efetiva execução dos projetos financiados com recursos públicos.
A Mangueira não pode chegar aos 100 anos refém de cochichos, dossiês, ameaças, exonerações e suspeitas. Uma instituição com a força histórica, cultural e simbólica da Verde e Rosa precisa ser maior do que seus grupos internos. A escola que ensinou o Brasil a cantar sua própria história deve agora demonstrar que também sabe prestar contas de seu presente.
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