O CAMAROTE VERDE E ROSA
O Governo do Estado do Rio de Janeiro pagou R$ 750
mil reais a Barizon Entretenimento empresa responsável pelo Camarote Verde e
Rosa na Marquês de Sapucaí para organizar um mini camarote para 80 pessoas no
ensaio da Estação Primeira de Mangueira no Palácio do Samba.]
Por Pablo Brandão | CTM Rio de Janeiro-RJ | 17 de julho de 2026
”Senhor Secretário, é com muita
satisfação que apresentamos ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, através
desta estimada Secretaria, o Projeto ‘Rio VerdeRosa’ ...
O objetivo do projeto é criar uma
experiência cultural autêntica e inesquecível para promover o Rio de Janeiro,
destacando o samba e a gastronomia típica como símbolos da identidade cultural
da cidade. Ao reunir a Velha Guarda da Mangueira e celebrar o samba em um local
icônico - Palácio do Samba da Mangueira na Rua Visconde de Niterói, 1072. Com
isso, fortalecer e valorizar as cadeias criativa e produtiva do carnaval,
gastronomia e música, não apenas no âmbito local, mas sendo uma oportunidade de
estimular o turista de todas as partes do Brasil e de outros países a
conhecerem essa genuína cultura carioca.”
É com reverência e antes de qualquer cifra, antes da planilha que o texto que a produtora Barizon Entretenimento LTDA, pessoa jurídica de direito privado devidamente inscrita no CNPJ sob o número: 14.767.454/0001-05, com sede na Avenida Ayrton Senna, 2150, Bloco E, Sala 225 – Barra da Tijuca/Rio de Janeiro – RJ – CEP 22.775 003, que apresentou à Secretaria de Estado de Turismo, o projeto “Rio VerdeRosa”que se propõe a proporciona uma imersão na cultura local e gastronomia típica de Mangueira e ao lado de apresentações musicais autênticas da Velha Guarda, incentivar uma conexão profunda com o Rio de Janeiro.
O
público esperado são os profissionais de agências, agentes, promotores de
viagens e influenciadores do turismo local, que através dessa vivência poderão
interagir com a mais rica história do samba e, assim, promoverem diversas
intervenções como essa que ocorrem no Rio de Janeiro. Por ser uma celebração
com bambas do samba em um local simbólico, o projeto oferece uma vivência única
que estimula o compartilhamento e o retorno dos turistas, além de consolidar o
Rio como o berço do samba e do Carnaval para o mundo.
Da esq. para dir.: Lula, Guesinha e Paulo Ramos (em pé); Soninha da Pedra e Vanda da Paixão (sentadas) — Foto: Leo Aversa
No texto toda a valorização merecida e pretendida que os integrantes da Velha Guarda Musical da Mangueira merecem, afinal são guardiões da memória, dos saberes e são eles que transmitem as novas gerações as matrizes dos sambas de terreiro, dos sambas de enredo e do partido alto, patrimônio imaterial da cultura brasileira. Celebram Cartola, Carlos Cachaça, Nelson Sargento, Leci Brandão, Nelson Cavaquinho, Jamelão, Alfredo Português, Pelado, Zagaia, Cumprido, Hélio Turco, Jajá e tantos outros poetas que integraram a Ala de Compositores da Estação Primeira fundada em 20 de janeiro de 1939.
O “Rio VerdeRosa” é um evento exclusivo
da produtora de eventos Barizon Entretenimento em parceria Escola de Samba
Estação Primeira de Mangueira que tem contrato com a referente produtora em
outros projetos. Além disso, a marca deste evento encontra-se em processo de
registro no INPI, cujo protocolo é 936905921.
O
Coletivo Transparência Mangueira realizou uma consulta ao INPI, para conferir a
veracidade da informação e o que encontramos:
Mas,
antes de passar à análise da marca “Rio Verde-Rosa”, permita-me
apresentar o COLETIVO TRANSPARÊNCIA MANGUEIRA - CTM.
Somos
uma iniciativa cidadã formada por torcedores e torcedoras, componentes,
moradores e moradoras, associados do Grêmio, pesquisadores, trabalhadores da
cultura, comunicadores e amantes da cultura popular de modo geral. Nosso
objetivo é acompanhar e fiscalizar a administração da Estação Primeira de
Mangueira, defendendo a transparência, a democracia interna, o respeito ao
Estatuto, a correta aplicação dos recursos públicos e privados e a preservação
do patrimônio histórico, cultural e comunitário da escola. Também buscamos
formar, capacitar e qualificar componentes, moradores da Mangueira e residentes
das áreas adjacentes para a realização de ações de fiscalização e auditoria
cidadã na execução de projetos.
Pretendemos constituir uma ampla rede de jovens e adultos capacitados e qualificados para atuar na elaboração, no acompanhamento, na fiscalização, na cobrança e, quando necessário, na denúncia de irregularidades relacionadas à execução de projetos culturais, sociais, esportivos, educacionais, ambientais e de qualificação profissional, entre outros. Dessa forma, buscamos contribuir para a correta aplicação dos recursos, principalmente em territórios como a Mangueira, que apresentam indicadores sociais muito inferiores à média da cidade do Rio de Janeiro.
Quando identificamos inconsistências, o CTM apresenta documentos e indícios para que sejam esclarecidos e, quando necessário, apurados pelas autoridades responsáveis. Nossa atuação busca fortalecer a participação dos associados, proteger a memória da Mangueira e garantir que decisões, gastos e resultados sejam devidamente publicados e comprovados. E neste sentido retomamos a questão da marca: Rio VerdeRosa.
A MARCA E A IDENTIDADE VERDE E ROSA
Foi Angenor de Oliveira, o Divino Cartola, fundador e o mais célebre
dos compositores da Estação Primeira, que batizou a agremiação quem escolheu as
cores verde e rosa. As cores da agremiação são um dos maiores símbolos de identidade
da instituição e a gestão Guanayra Firmino dos Santos que se avilta em dizer ter
uma excelência administrativa e o cuidado com a marca Mangueira, apesar de todos
os indícios e os fatos documentados dizerem o contrário, apresentamos a Nação
Mangueirense e a sociedade como um todo, mais um grave atentado contra a
agremiação os seus associados, a sua comunidade aos seus componentes.
No plano da governança e do patrimônio simbólico o fato é grave. O valor de "Rio VerdeRosa" não nasce do senhor Barizon: nasce da Mangueira. "Verde e rosa" são as cores da agremiação; o evento acontece na quadra da escola; a atração que lhe dá sentido é a Velha Guarda da Mangueira; e a produção foi custeada por R$ 750 mil reais —dinheiro público, sob o argumento de valorizar essa mesma cultura.
Todo o capital reputacional que torna a marca economicamente atraente é extraído da identidade mangueirense. Ainda assim, o único ativo que sobrevive às festas — a marca, que pode ser explorada por anos — foi capturado, em nome próprio, por um particular. E a gestão Guanayra Firmino assinou a "Autorização de Evento" que viabilizou tudo isso sem, ao que os autos revelam, assegurar à escola qualquer cotitularidade, licença, royalty ou mesmo direito de veto sobre o sinal. De um ponto de vista de dever fiduciário da diretoria — o dever de zelar pelo patrimônio, inclusive o imaterial, da associação —, permitir que um terceiro registre em nome próprio uma marca que se apropria das cores e do prestígio da escola, sem contrapartida e com risco futuro para a agremiação, é exatamente o tipo de decisão que uma administração diligente não tomaria. É uma gestão inapta, incapaz administrativamente, politicamente, juridicamente, eticamente e moralmente.
APROPRIAÇÃO INDEVIDA POR BARIZON
É indecente, é imoral que o senhor Marco Antônio Barizon, pessoa
física — inscrito no CPF 012.025.037-30 —, qualificado com endereço residencial
(um apartamento na Barra da Tijuca), distinto da sede comercial de sua
produtora. Barizon mantém relação
contratual com a Mangueira, atua no ramo de eventos e registra um sinal que
evoca a escola para produzir espetáculos realizados na própria quadra, com a
Velha Guarda da escola.
A classe reivindicada pelo senhor Barizon é a NCL(12) 41 que cobre justamente "organização e realização de eventos de entretenimento", "produção de shows", "promotor de eventos artísticos/culturais" e até "venda de ingressos para shows e espetáculos". É, em outras palavras, o direito comercial durável de ser o titular do evento "Rio VerdeRosa", com poder de licenciar, ceder, vender ou impedir terceiros de usarem o sinal — inclusive, em tese, a própria Estação Primeira de Mangueira.
A Lei de Propriedade Industrial (Lei nº 9.279/96) veda, no art. 124, inciso XXIII, o registro de sinal que imite ou reproduza marca que o requerente evidentemente não poderia desconhecer em razão de sua atividade, destinada a serviço idêntico, semelhante ou afim, suscetível de causar confusão ou associação com a marca alheia. O caso encaixa-se com precisão nesse tipo: o senhor Barizon mantém relação contratual com a Mangueira, atua no ramo de eventos e registra um sinal que evoca a escola para produzir espetáculos realizados na própria quadra, com a Velha Guarda da escola. É precisamente o cenário de má-fé que a jurisprudência associa ao inciso XXIII. Some-se a isso a proteção à marca notoriamente conhecida e o risco de associação indevida.
Uma instituição que entrega o registro de uma marca de uma identidade a uma pessoa física, em detrimento da própria instituição, não terá a preocupação mínima com aqueles que carregam toda a ancestralidade, sabedoria e dom musical e isso é fato corroborado quando analisamos as notas fiscais, a Velha Guarda Musical que justificou o investimento do recurso pela Secretaria de Turismo do Estado e que ainda ensaiou, se apresentou e teve toda a sua história para garantir o recurso recebeu apenas: R$ 10.913,97.
Nos recusamos a continuar qualquer análise sobre este estapafúrdio desrespeito. Dito isto, passemos a análise da contratação que foi feita por INEXIBILIDADE DE LICITAÇÃO — o instrumento que a lei reserva para os casos em que não há competição possível, porque só existe um fornecedor apto a entregar aquele objeto. Segundo o que consta nos processos a justificativa era que a Barizon Entretenimento Ltda., sediada num conjunto de salas na Barra da Tijuca e representada por Marco Antônio Barizon, seria "a detentora dos direitos exclusivos de exploração do evento". Não havendo outro que pudesse oferecer a mesma coisa, dispensava-se a licitação.
O empenho saiu com o número 2025NE00001 — o primeiríssimo compromisso financeiro da Secretaria de Turismo naquele ano. Entre tudo o que o Estado do Rio poderia priorizar em janeiro, a feijoada no camarote foi o começo da fila.
A TRADICIONAL FEIJOADA DA NAÇÃO MANGUEIRENSE: consolidou-se como um dos principais encontros de convivência, cultura e celebração da NAÇÃO MANGUEIRENSE. Evento mensal desde pelo menos 2006 —, a feijoada reúne moradores, componentes, torcedores, artistas e visitantes em torno da culinária popular, de rodas de samba, apresentações da bateria, passistas, baianas, casais de mestre-sala e porta-bandeira e convidados da música brasileira. Mais do que um evento gastronômico, tornou-se um espaço de transmissão da memória, fortalecimento da identidade verde e rosa, encontro entre gerações e aproximação da escola com seu público, sendo reconhecida como uma referência cultural da cidade do Rio de Janeiro.
O evento se chamava "Rio VerdeRosa" e prometia, nas
palavras da própria proposta, "uma experiência cultural autêntica e
inesquecível". A ideia, em resumo, era servir feijoada e samba a um
público específico — "agências, agentes, promotores de viagens e
influenciadores do turismo local" — no Palácio do Samba, na Rua Visconde
de Niterói, 1072, sede da Estação Primeira de Mangueira. Haveria feijoada às
13h, a Velha Guarda às 16h, uma roda de samba às 17h, e às 18h estaria tudo
encerrado. Haveria, também, um "camarote exclusivo reservado na quadra da
Mangueira para os 80 convidados", com uma "área instagramável" e
um painel de fundo de quatro metros por dois. O Estado entraria com o
patrocínio; em troca, receberia oitenta convites por dia de evento e a
associação de sua marca àquela "cultura viva".
A prova disso está numa folha timbrada da Estação Primeira de Mangueira, assinada em 7 de novembro de 2024 pela presidenta da escola, Guanayra Firmino dos Santos. É uma "Autorização de Evento". Nela, a Mangueira autoriza a Barizon a realizar, nas datas combinadas, uma "área reservada para 80 convidados durante a nossa tradicional feijoada".
A palavra é nossa. A feijoada é da escola. Acontece de qualquer maneira, com ou sem o Estado, com ou sem a Barizon, como acontece há anos no calendário da Mangueira. O que a produtora obteve não foi o direito exclusivo sobre um evento inédito que teria concebido — foi uma autorização para montar um camarote dentro de uma festa que já existia. A diferença não é sutil. Ela é o alicerce jurídico inteiro da contratação, e é falsa.
A Procuradoria Geral do Estado percebeu. No Parecer 105, que instrui o processo, a PGE registrou, com a polidez cifrada dos pareceres, que "não foram juntados documentos" capazes de comprovar a exclusividade. E apontou uma curiosidade: o papel que a Barizon havia anexado sob o título pomposo de "Declaração de Exclusividade", assinado pelo próprio sócio da empresa, não declarava que a Barizon era a organizadora exclusiva do evento. Declarava outra coisa — que a Secretaria de Turismo era a patrocinadora exclusiva. A empresa atestara a exclusividade do freguês, não a sua própria. Era um espelho apontado para o lado errado.
AS RECOMENDAÇÕES DA PROCURADORIA GERAL DO ESTADO
A PGE recomendou reforço de instrução. A Secretaria respondeu
numa nota técnica em que, para provar a exclusividade, invocou dois documentos:
um pedido de registro de marca no INPI — não um registro concedido, um pedido,
e que protegeria no máximo o nome "Rio VerdeRosa" — e a tal
autorização da Mangueira. Isto é: para provar que o evento era da Barizon, a
Secretaria apresentou o documento em que a Mangueira diz que a feijoada é dela.
O argumento mordia a própria cauda. E, mesmo assim, seguiu adiante.
Seguiu com pressa. O contrato foi assinado eletronicamente em 10 de janeiro de 2025. O primeiro dos dois eventos aconteceu no dia 11. O extrato do contrato só foi publicado no Diário Oficial em 14 de janeiro. Ou seja: quando a feijoada patrocinada foi servida, o contrato que a patrocinava ainda não tinha eficácia publicada. A festa passou na frente do papel.
Para entender aonde foi o dinheiro, é preciso ler as notas fiscais que a Barizon juntou na prestação de contas. São onze notas de fornecedores, quase todas emitidas em bloco entre os dias 10 e 13 de fevereiro de 2025 — depois de encerrado o segundo evento, e a poucos dias do atestado que aprovaria tudo. A leitura, feita com calma, desenha uma hierarquia de valores que não bate com a hierarquia de reverências da proposta.
No topo, isolada, está uma nota da empresa Ponto 3 Eventos, no valor de R$ 124.125,00 — quarenta e um por cento de todo o patrocínio. O que ela descreve é apenas "venda de mercadorias / produtos", sem discriminar o que foram essas mercadorias. É a maior despesa do projeto, é genérica, e foi emitida depois que os eventos já haviam terminado.
Depois vêm o transporte, com a Aliança de Bangu Transporte e Turismo, a R$ 55.775,00; a cenografia, com a Minimalistas, a R$ 46.326,03 em duas notas; o som, a luz e o vídeo, com a GP Afonso Produções, que atende pelo nome fantasia de Megalus, a R$ 45.350,00. Uma gráfica, a Realize Design, cobrou R$ 7.950,00, e sua nota registra tratar-se de "50% do trabalho". A filmagem coube à Arapuã Filmes, por R$ 3.870,00 — "com Uber", esclarece o documento. Uma empresa de serviços cadastrais, a Lupa, levou R$ 2.500,00. Uma prestação de serviços de um microempreendedor individual fechou mais R$ 690,30. E os bambas? A Velha Guarda aparece em duas notas. Uma, de R$ 5.913,97, emitida pelo Grupo RJB Produções Artísticas, de Robson Lo Bianco, refere-se a uma "apresentação musical da Velha Guarda Musical da Mangueira" — que a nota data de 1º de fevereiro, um dia que não corresponde a nenhuma das duas datas oficiais do evento, marcado para 11 de janeiro e 8 de fevereiro. A outra, de R$ 5.000,00, foi emitida pela empresa Amigos da Velha Guarda do Samba, de Janaína da Conceição Montealegre Martins Lo Bianco — mesmo sobrenome do primeiro fornecedor — pelo show de 11 de janeiro. Somadas, as duas notas dos artistas dão os já mencionados R$ 10.913,97.
Vale deixar os números lado a lado, porque é neles que a história se conta sozinha. A "venda de mercadorias" genérica da Ponto 3 recebeu mais de onze vezes o que receberam, juntos, os homens que cantaram Cartola. O transporte custou mais de cinco vezes o cachê dos artistas. A cenografia — os panos, a "área instagramável", o backdrop de quatro por dois — custou mais de quatro vezes o que a Velha Guarda levou para casa. Num evento cuja razão de existir, segundo sua própria proposta, era a "cultura viva" e os "guardiões das tradições", os guardiões foram a menor linha da planilha, à exceção de um serviço cadastral e de um MEI.
Há ainda uma conta que não fecha, e o modo como não fecha é instrutivo. As notas dos fornecedores somam R$ 297.500,30. O patrocínio foi de R$ 300 mil. Sobra, para a produtora que concebeu, organizou, contratou e coordenou tudo, uma margem declarada de R$ 2.499,70 — menos de um por cento. Nenhuma empresa de eventos trabalha assim, de graça, por amor à causa. Quando a margem de uma produtora comercial some quase por inteiro, o que costuma ter acontecido não é generosidade: é que a papelada foi montada de trás para frente, a partir do número que se precisava alcançar — trezentos mil — e não a partir do custo real do que se entregou.
Tudo isso foi atestado. Em 17 de fevereiro de 2025, dois servidores da Secretaria de Turismo assinaram o Atestado de Realização dos Serviços, declarando que a Barizon executara o contrato "de acordo com as especificações contratuais pactuadas". Chamavam-se Carlos Vinicius da Rocha Rita Filho e Luiz Felipe do Amaral de Carvalho, ambos indicados como fiscais do contrato. No mesmo dia, um assessor-chefe aprovou a prestação de contas, e um contador certificou a regularidade da liquidação. A máquina, uma vez posta em movimento, não emperrou em nenhuma engrenagem.
Nem sequer tropeçou na exigência que a própria PGE havia feito, num segundo ponto do parecer, de que a Secretaria apresentasse "estudos que evidenciem, de forma estatística e pormenorizada", o retorno econômico daquele patrocínio. Esse estudo nunca veio. No lugar dele, a Secretaria comparou o valor do "Rio VerdeRosa" ao de outro evento que já patrocinara — o "Moto Brasil", uma feira de motocicletas — e considerou a comparação suficiente. Feijoada e motocicleta, no cálculo do Estado, custam o mesmo e valem o mesmo.
O SEGUNDO ATO
Em janeiro de 2026, a Secretaria de Turismo abriu novo processo. Mesmo formato, mesmo local, mesma empresa. A Barizon Entretenimento — o mesmo CNPJ da Barra da Tijuca — voltava a ser contratada, por inexigibilidade, para levar oitenta profissionais de turismo a uma "experiência cultural" na quadra da Mangueira. O nome do evento oscilava de página para página: ora "Experiência Cultural Verde Rosa – Tô no Rio, tô no samba", ora, na proposta usada como parâmetro de preço, "20 anos do Meia Hora" — o aniversário de um jornal popular, evocado ali para justificar o valor de um camarote em ensaio de escola de samba, na mesma técnica de comparação improvável do ano anterior. Desta vez, a conta era de R$ 450 mil. Cinquenta por cento mais cara, por uma única noite.
E desta vez o documento que deveria provar a exclusividade prova, com nitidez ainda maior, o contrário. Anexo ao processo, há um "Termo de Cessão de Uso de Espaço" em que a Mangueira, na condição de cedente, empresta à Barizon, cessionária, um camarote de sua quadra — o Palácio do Samba — "exclusivamente no dia 31 de janeiro de 2026, com início às 22h, estendendo-se até o encerramento do ensaio oficial da escola". O evento cuja "exploração exclusiva" a Barizon declara deter é, nas palavras do próprio termo, o ensaio oficial da Mangueira. Não se concebe nem se produz o ensaio de uma escola de samba. Ele já existe, faz parte da rotina da agremiação, acontece com ou sem camarote. O que a produtora vende ao Estado, de novo, é o acesso a uma coisa que a Mangueira faz sozinha — agora a R$ 5.625,00 por convidado.
O contrato dessa segunda contratação — o de número 07/2026 — foi assinado e enviado à publicação em 2 de fevereiro de 2026. Quem são os fiscais designados para atestar sua execução, o processo digitalizado não permite saber: o instrumento em que constam seus nomes não foi juntado ao conjunto. Sabe-se apenas quem instruiu a demanda — servidores da Subsecretaria de Grandes Eventos, entre eles Lucas Affonso de Oliveira, que assinou o documento de oficialização, o estudo técnico, o mapa de riscos e o termo de referência — e sabe-se que ao menos dois nomes atravessam os dois processos, o de R$ 300 mil e o de R$ 450 mil: Luis Eduardo Pereira e Cristiano Salles Kelly, presentes na papelada das duas festas.
Volto aos velhos, porque é com eles que este relato deve terminar, como começou.
A Velha Guarda Musical da Mangueira é, de
fato, tudo o que a proposta diz que ela é. Guarda a memória de Cartola e de
Carlos Cachaça. Cantou no Japão antes de muitos brasileiros a conhecerem. Foi
tombada como patrimônio. Seus integrantes passaram dos sessenta, alguns bem, e
carregam nas vozes o que sobrou de um século de samba no Bairro de Mangueira.
Foram eles que, nas duas tardes de 2025, subiram ao palco montado no camarote e
fizeram exatamente aquilo que dava ao evento o direito de se chamar cultural. Sem
eles, o "Rio VerdeRosa" seria feijoada com backdrop.
Por esse trabalho — pelo que os documentos chamam, sem cerimônia, de "realização de shows" —, os guardiões das tradições receberam R$ 10.913,97. A cenografia diante da qual eles cantaram custou quatro vezes mais. As mercadorias que ninguém especificou custaram onze vezes mais. E o Estado, que pagou por tudo, levou para casa cento e sessenta convites de camarote e a fotografia de sua marca ao lado de homens que, se soubessem quanto valeu cada linha daquela planilha, talvez preferissem ter cantado de graça, como sempre fizeram, na quadra que é deles.
O empresário Sr. Barizon que registrou para si a marca Rio VerdeRosa.
A diretoria da Mangueira, cabe agora responder se sabia ou não sabia do pagamento do valor de R$ 750 mil reais pela realização destes evento pela Barizon Entretenimento LTDA, pela Secretaria de Turismo do Governo do Estado do Rio de Janeiro.
Se o Conselho Diretor da Estação Primeira de Mangueira sabia do pagamento de R$ 750 mil reais como patrocínio para eventos que a Mangueira já realiza semanalmente no caso do ensaio de Quadra, do dia 31, como mensalmente a tradicional feijoada da Nação Mangueirense. Cientes, deste valor, porque consentiram e não interviram junto a empresa Barizon por um pagamento minimamente digno para com a história a importância e a representatividade da Velha Guarda Musical da Mangueira.
É importante ainda por fim, questionar a diretoria, porque a empresa Barizon recebeu os recursos do patrocínio das atividades realizadas pela Estação Primeira de Mangueira, em sua Quadra?
Questiona-se ainda se os ritmistas da Bateria, passistas, baianas, componentes da comunidade e da equipe show da Mangueira, foram devidamente remunerados por sua atuação, é inegável que havia recursos robustos para a realização destas duas atividades. É imoral, desrespeitoso com o esforço a dedicação e o compromisso exigido de cada ritmista da Bateria da Mangueira e se pela participação destes no ensaio do dia 31 de janeiro, no Palácio do Samba, não foram pagos pelo R$ 200 reais para cada um e cada uma que ali esteve, isso significa que o Conselho Diretor perdeu as referências morais e éticas mínimas e não possuem a honra para ocupar posição que já ocupam de maneira criminosa, conforme denúncias públicas.
O Coletivo Transparência Mangueira, torna público mais este fato que ocorreu e a NAÇÃO MANGUEIRENSE estava totalmente no obscurantismo, a falta de compromisso efetivo com a transparência, a moralidade, a ética, as boas práticas políticas e de governança fazem desta gestão o exemplo a não ser seguido. Quando a verdade e o respeito a democracia dão lugar a ambição financeira o amor ao pavilhão, já foi vendido e ofertado ao custo inclusive do encerramento das atividades desta que é a instituição cultural mais importante deste país. Salvem a Mangueira!
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