Xande de Pilares desmente presidente da Mangueira, Guanayra Firmino: “MENTIRA! Foi comunicada antes”
“MENTIRA”: XANDE DE PILARES DESMENTE VERSÃO DIVULGADA PELA MANGUEIRA E REABRE CRISE SOBRE RETIRADA DE SAMBA
Semanas depois de deixar a disputa, sambista afirma que a direção foi avisada previamente. Gilson Bernini já havia apresentado a mesma versão e citado e-mail, WhatsApp respondido pela presidenta e comunicação ao diretor de Carnaval. Caso transformou a desistência do Samba 03 em uma das maiores controvérsias da disputa da Mangueira para 2027.
Xande de Pilares na Quadra da Mangueira
O que começou como a surpreendente desistência de uma das parcerias apontadas como favoritas ao samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira para o Carnaval de 2027 transformou-se numa disputa pública de versões sobre a atuação da presidência da escola. Agora, semanas depois do episódio, Xande de Pilares resolveu falar.
Questionado em entrevista divulgada pelo Xiado Carioca sobre a retirada do Samba 03, Xande foi taxativo ao ouvir a versão segundo a qual a Mangueira teria tomado conhecimento da desistência pelas redes sociais:
“Mentira. Não foi pelas redes sociais. Foi feito um comunicado.”
A declaração atinge diretamente o primeiro parágrafo da Nota Oficial divulgada pela Estação Primeira de Mangueira em 12 de agosto. Naquele documento, publicado institucionalmente pela escola presidida por Guanayra Firmino dos Santos, a agremiação informou ter tomado conhecimento “por meio das redes sociais” da decisão da parceria de abandonar as eliminatórias.
Não se trata, portanto, de uma divergência sobre a qualidade de um samba ou de diferentes interpretações sobre uma apresentação. Existem duas versões objetivamente incompatíveis sobre um mesmo fato: a direção sabia ou não sabia antes da publicação nas redes sociais?
O SAMBA QUE ESTAVA CRESCENDO NA DISPUTA
A dimensão da crise só pode ser compreendida quando se observa o que estava acontecendo antes da desistência.
O Samba nº 03 era assinado por Gilson Bernini, Xande de Pilares, Karinah, Gustavo Clarão, Beto Savanna e Felipe Mussili. Antes mesmo do início das eliminatórias, a parceria recebeu ampla divulgação em portais, sites de carnaval e páginas especializadas.
Na primeira eliminatória, realizada em 1º de agosto, o samba abriu as apresentações no Palácio do Samba e avançou. Quatro das dez obras inscritas foram eliminadas naquela primeira noite.
Em 8 de agosto, voltou ao palco na segunda eliminatória. A avaliação publicada pelo site Carnavalesco destacou uma apresentação de forte energia, conduzida por Pitty de Menezes e Ito Melodia, registrando inclusive adesão de pessoas que não pertenciam à torcida organizada da parceria.
Nos dias seguintes, as manchetes começaram a utilizar expressões como “segue forte”, “avança”, “embala a comunidade” e “desponta como favorito”.
Ou seja: a parceria não saiu depois de ser eliminada. Saiu classificada.
E esse detalhe mudaria completamente a repercussão do caso.
12 DE AGOSTO: A BOMBA
Na quarta-feira, 12 de agosto, a parceria anunciou que estava deixando o concurso.
O comunicado informou que a decisão havia sido tomada pela maioria dos compositores. Também fez questão de esclarecer que Karinah não concordava com a retirada e defendia a permanência da obra na disputa.
Os demais integrantes decidiram não tornar públicos os motivos naquele momento. A justificativa apresentada foi o respeito “à escola, à comunidade e a todos os envolvidos”.
A mensagem terminava afirmando que o Samba 03 deixava o concurso, mas que a obra construída permaneceria.
O impacto foi imediato justamente porque, poucas horas antes, ainda circulavam matérias anunciando a apresentação do samba na eliminatória seguinte.
Uma parceria composta por nomes de grande experiência, com uma obra classificada e tratada por diferentes veículos como uma das candidatas ao título, simplesmente saiu.
A pergunta passou a circular pela comunidade: por quê?
A NOTA OFICIAL DA MANGUEIRA
A Mangueira respondeu.
Em Nota Oficial divulgada nas redes sociais, a agremiação afirmou que havia tomado conhecimento da retirada “por meio das redes sociais”.
Disse também manter, desde o início da disputa, um “canal direto de diálogo” com todas as parcerias, criado para garantir comunicação, transparência e alinhamento.
A escola reconheceu a qualidade do samba e a trajetória dos compositores, mas lamentou a forma como a retirada teria sido conduzida, sustentando que não havia sido previamente informada nem tivera oportunidade de participar da construção de um comunicado.
A Nota ainda enfatizou que a decisão havia sido tomada unilateralmente pela parceria, negou qualquer participação da escola na desistência e repudiou tentativas de responsabilizar a agremiação.
A repercussão do documento deslocou imediatamente o centro da polêmica.
Já não se discutia apenas por que o Samba 03 havia desistido.
Passou-se a discutir também se a Nota Oficial dizia a verdade ao afirmar que a Mangueira não havia sido avisada.
GILSON BERNINI APRESENTA OUTRA VERSÃO
No dia seguinte, 13 de agosto, Gilson Bernini veio a público.
E apresentou uma narrativa totalmente diferente da versão institucional.
Bernini afirmou que a comunicação havia ocorrido antes da divulgação pública da desistência. Segundo o compositor, teria sido enviado e-mail, uma mensagem pelo WhatsApp para a presidenta Guanayra Firmino, que teria inclusive respondido a Beto Savanna, e também teria ocorrido comunicação no grupo oficial da disputa ao diretor de Carnaval.
Em vídeo, Bernini resumiu:
“Foi enviado um e-mail, foi enviado um zap para a presidenta e tem o print como ela respondeu e foi comunicado no grupo da disputa ao Diretor de Carnaval.”
Beto Savanna apareceu nos comentários reforçando a manifestação do parceiro:
“É isso, Titio, nossa verdade é só uma. Seguimos...”
O vídeo de Bernini provocou intensa movimentação. No levantamento realizado posteriormente, a publicação já reunia milhares de interações.
A partir daquele momento, a controvérsia deixou de ser uma mera suspeita de bastidor.
Um compositor seis vezes vencedor de disputas de samba da Mangueira estava declarando publicamente que a premissa central da Nota Oficial da escola não correspondia ao que havia acontecido.
Bernini tem uma relação histórica com a Verde e Rosa. Venceu disputas da agremiação em 2000, 2001, 2003, 2004, 2006 e 2009 e conquistou Estandartes de Ouro de melhor samba-enredo.
Não era, portanto, um estreante reclamando de uma eliminação.
O COLETIVO TRANSPARÊNCIA ENTRA NO DEBATE
O episódio também provocou manifestação do Coletivo Transparência Mangueira, que publicou a Nota intitulada “Quando o Samba Desiste: a desistência da parceria de Xande de Pilares, Gilson Bernini e Karinah na Mangueira”.
O documento retomou uma discussão anterior.
Em 26 de maio de 2026, meses antes do início das eliminatórias, o Coletivo havia encaminhado formalmente ao Conselho Deliberativo e Fiscal proposta para elaboração de um edital público para o concurso de samba-enredo.
A proposta defendia critérios escritos de julgamento, comissão independente, regras de impedimento, possibilidade de recurso, publicidade dos procedimentos e mecanismos destinados a reduzir dúvidas sobre conflitos de interesses.
Segundo o Coletivo, a proposta não foi acolhida.
A entidade relacionou a desistência àquilo que considera uma crise progressiva de confiança no processo de escolha do samba.
Os números foram utilizados como argumento.
A disputa de 2027 recebeu apenas dez obras e 55 compositores. Na série histórica organizada pelo Coletivo, abrangendo onze concursos entre 2016 e 2027 e desconsiderando 2021, foram contabilizadas 271 obras e 1.223 participações de compositores, média de 24,6 sambas e 111,2 participações por disputa.
Os dez sambas de 2027 constituem o menor resultado dessa série.
Entre 2016 e 2022, seis disputas reuniram 174 obras — média de 29 por ano. Somados 2025, 2026 e 2027, foram apenas 43, média de 14,3.
Para o Coletivo, a desistência de uma parceria classificada tornou ainda mais simbólico um concurso que já havia começado esvaziado.
O coordenador da entidade, historiador Pablo Brandão, questionou a contradição entre a própria Nota Oficial e o relato dos compositores: se a gestão afirmava possuir um canal direto para comunicação com todas as parcerias e os compositores dizem que utilizaram esses canais, seria necessário explicar por que a escola declarou ter tomado conhecimento apenas pelas redes sociais.
A DISPUTA FICOU COM QUATRO SAMBAS
A retirada alterou também a dinâmica da competição.
Na terceira eliminatória, realizada em 15 de agosto, deveriam estar cinco obras classificadas. Sem o Samba 03, apenas quatro subiram ao palco.
Naquela noite, foi eliminado o samba da parceria de Gustavo Louzada, Dulce Santos, Alexandre Naval, Valtinho Botafogo e Raimundo Santa Rosa.
Restaram somente três obras numa competição que ainda tinha outras datas previstas antes da final de 5 de setembro.
Começaram então questionamentos entre torcedores sobre o próprio planejamento do calendário: haveria eliminatória sem corte? A final seria antecipada? Os três sambas seriam apresentados repetidamente até 5 de setembro?
A escola respondeu a seguidores em suas redes sociais que o calendário seria mantido.
IVO MEIRELLES ENTRA NA POLÊMICA
A temperatura aumentou ainda mais depois da terceira eliminatória.
O ex-presidente da Mangueira Ivo Meirelles, que comandou a escola entre 2009 e 2013, acompanhou as apresentações e publicou em seu Instagram que a Mangueira já tinha o seu samba.
E acrescentou:
“E ele é BRABO!”
A frase veio acompanhada de:
“Pronto, falei!”
A publicação foi interpretada como mais uma intervenção num ambiente em que já circulavam suspeitas, acusações e discussões sobre favoritismo.
A disputa, que deveria estar concentrada na comparação entre letra, melodia e desempenho dos sambas, passou a ser acompanhada também por uma intensa batalha de narrativas nas redes sociais.
E XANDE PERMANECEU EM SILÊNCIO
Embora seu nome fosse o mais conhecido nacionalmente entre os integrantes da parceria, Xande de Pilares não havia feito, naquele momento, uma exposição pública detalhada sobre a polêmica criada pela Nota Oficial.
Isso deixou o vídeo de Gilson Bernini como a principal contestação direta à narrativa institucional.
Até agora.
“MENTIRA. NÃO FOI PELAS REDES SOCIAIS”
Na entrevista divulgada pelo Xiado Carioca, Xande finalmente entrou diretamente na discussão.
Ao ser perguntado sobre a retirada do samba e a repercussão que veio depois, contou que a parceria decidiu sair e que ele alertou os demais integrantes para as consequências que a decisão poderia produzir:
“Sabe que vai ter consequência, né? Nego vai interpretar de várias formas.”
Xande afirma que apoiou a decisão tomada pelos parceiros.
Em seguida, ao abordar a declaração da Mangueira de que teria descoberto a retirada pelas redes sociais, não deixou espaço para interpretação:
“Mentira. Não foi pelas redes sociais. Foi feito um comunicado.”
Para Xande, depois de decidida a retirada, a providência correta era justamente procurar quem tinha legitimidade institucional e comunicar.
“Vai quem é de direito, vai lá e dá o papo, não precisa explicar nada e comunica que vai tirar o samba.”
A afirmação coincide, no ponto essencial, com o que Gilson Bernini havia declarado semanas antes.
“ISSO NÃO É COISA DE GAROTOS DE 20 ANOS”
Xande foi além.
Ao falar sobre a forma como os integrantes da parceria agiram, rejeitou a ideia de uma decisão impulsiva tomada simplesmente através de uma postagem:
“Isso não é coisa de garotos de 20 anos. A coisa tem que ser com homens, chefes de família.”
Na sequência, explicou que ninguém simplesmente entraria “num Instagram da vida” para anunciar que estava retirando o samba.
E repetiu o ponto central:
“Primeiro foi feito um comunicado.”
A declaração é particularmente relevante porque responde diretamente à crítica contida na Nota Oficial da escola à maneira como a parceria teria conduzido sua saída.
O artista também deixou claro que, apesar da divergência, não pretendia faltar com respeito à instituição Mangueira, separando a escola da controvérsia administrativa.
DUAS VERSÕES, A MESMA PERGUNTA
Depois de quase um mês, a questão que permanecia aberta ganhou um novo elemento.
A versão oficial da Mangueira afirma:
a escola soube pelas redes sociais e não havia sido previamente informada.
Gilson Bernini afirma:
houve e-mail, WhatsApp à presidenta, resposta ao parceiro e comunicação no grupo oficial da disputa.
Xande de Pilares agora afirma:
“Mentira. Não foi pelas redes sociais. Foi feito um comunicado.”
Essa é a contradição objetiva que a direção da Mangueira precisa esclarecer.
Se existiram os e-mails, as mensagens e a resposta atribuída à presidenta, é possível verificar quando foram enviados e recebidos.
Se houve comunicação no grupo oficial das eliminatórias, também é possível estabelecer cronologicamente quando ocorreu.
Trata-se, portanto, de uma controvérsia que não depende apenas de memória ou interpretação: há referências a registros eletrônicos verificáveis.
DE UMA DESISTÊNCIA A UMA CRISE DE CREDIBILIDADE
Talvez seja esse o principal resultado da repercussão.
No dia 12 de agosto, a pergunta era:
Por que uma das parcerias favoritas abandonou a disputa?
Depois da Nota Oficial, passou a ser:
A Mangueira realmente só soube pelas redes sociais?
Depois de Gilson Bernini:
Se a presidenta recebeu mensagem e respondeu, por que a Nota dizia que não havia comunicação prévia?
Agora, depois de Xande:
Como sustentar a versão institucional diante de dois integrantes da parceria afirmando publicamente o contrário?
O Samba 03 saiu da competição.
Mas a controvérsia que ele deixou continuou disputando espaço dentro e fora da quadra.
E, semanas depois, Xande de Pilares devolveu o assunto ao centro da discussão com uma palavra que dificilmente passará despercebida:
“Mentira.”
DOCUMENTOS E REGISTROS DA REPERCUSSÃO
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